As empresas liberaram seus funcionários, o trânsito nas ruas ficou caótico e até os cachorros saíram às ruas vestidos de verde e amarelo para a estreia do Brasil na Copa do Mundo da África do Sul. Os jovens da Aldeia Krukutu, no entanto, não encontraram motivos para mudar a rotina nesta terça-feira. Enquanto os mais velhos acompanhavam a vitória por 2 a 1 sobre a Coreia do Norte sem grande empolgação, um grupo de meninos e meninas jogava bola com os pés descalços no campo de terra da área que abriga os índios guarani em São Paulo.
Com aproximadamente 60 famílias e 300 pessoas no bairro de Parelheiros, a Aldeia Krukutu é uma das três existentes no município. A maioria da população é de jovens e, muitas vezes, as feições são o único traço genuinamente indígena na aparência. Ao invés de roupas e adereços típicos, vários usam camisas de times de futebol, pintam o cabelo e têm celular. O penteado no estilo moicano popularizado por boleiros como Neymar e André também pode ser visto na área. Entre as meninas, há quem use até piercing na sobrancelha.
Hoje dizimados após cinco séculos de dominação branca, os índios não passam de 460 mil em território nacional, de acordo com a Fundação Nacional do Índio (Funai). O grupo corresponde a apenas 0,25% da população brasileira e está distribuído em 225 sociedades. Não existem números precisos e confiáveis antes da chegada dos europeus ao continente americano, mas as estimativas publicadas no site oficial da Funai falam em até 10 milhões de indivíduos e 1,3 mil idiomas diferentes.
Sergio Barzaghi/Gazeta PressPedrinho é corintiano, mas nunca foi ao estádio por medo da violência Na escola dirigida por Pedro Delane, 27 anos, as crianças de primeira a quarta série não aprendem que o navegador português Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil em 1.500. "Nós somos os povos nativos do Brasil, somos os verdadeiros brasileiros. Para nós, dizer que alguém descobriu o Brasil é como se fosse uma invasão, porque nossos antepassados, os povos indígenas, já moravam aqui muito antes. Ninguém descobriu o Brasil, os portugueses só invadiram as nossas terras", disse.
No entanto, ele garante que não tem qualquer tipo de rancor e diz apoiar a seleção. Ainda assim, admira os arquirrivais. "Eu torço pelo Brasil, mas gosto mais do futebol da Argentina, porque eles têm mais raça. Eles jogam com mais vontade, os jogos deles são mais pegados. Eu assisto aos jogos do Brasil e nunca vi o time jogar com tanta raça como os argentinos. Falta experiência ao Dunga. Eu teria chamado o Roberto Carlos e o Ganso", diz o diretor da escola, conhecido como Pedrinho, fã de Lionel Messi e Carlos Tevez.
Na escola, as crianças aprendem o idioma e as tradições do povo guarani, como as canções e pratos típicos. Na tarde desta sexta-feira, no entanto, a sala de aula virou uma arquibancada improvisada. Com o equipamento audiovisual proporcionado pelo governo para os alunos, Pedro Delane armou um telão e acompanhou o jogo ao lado de alguns poucos companheiros, sem a presença do cacique. Enquanto assistiam à partida disputada na África do Sul, os índios passavam o petynguá (cachimbo típico) de mão em mão.
Sergio Barzaghi/Gazeta PressO habilidoso são-paulino Lauro Gabriel joga como zagueiro no time da Aldeia Krukutu Antes do gol de Maicon, o bate bola no campo de terra da aldeia Krukutu não cessou. Como qualquer criança que joga futebol de salão com a camisa oficial da seleção em um condomínio fechado, os índios de pés descalços brincavam de ser Robinho e gritavam "vai Brasil" para comemorar os gols. Vestido com a camisa do são-paulino Washington, Lauro Gabriel, 23 anos, mostrava malícia e ajustava as passadas para aplicar chapéus nos adversários.
"Eu torço pela seleção, mas gosto mais do São Paulo. Se fosse o São Paulo jogando, com certeza eu não perderia. O Dunga poderia ter chamado o Hernanes. Não tenho rádio nem televisão, mas sempre tento acompanhar os jogos do São Paulo", diz o jovem, que evita sair da aldeia por achar a cidade "muito barulhenta". Sem emprego fixo, ele tem na venda de artesanato sua única fonte de renda e pode ser encontrado frequentemente no campo barrento. "Estou sempre jogando. Não tenho mais nada para fazer mesmo...", disse.
A cerca de 60 quilômetros do centro, no extremo sul da capital paulista, os índios vivem nas bordas da sociedade. Na aldeia às margens da Represa Billings e com casas de pau a pique, as únicas opções de emprego são as instituições governamentais. Basicamente, os que não estão desempregados trabalham na escola, no posto de saúde ou no Centro Educacional de Cultura Indígena (Creci). O grupo sobrevive do que ganha com a venda de artesanato e dos R$ 5,00 a R$ 10,00 cobrados por aluno das escolas que visitam a aldeia, além de doações.
Sergio Barzaghi/Gazeta PressO petynguá é costume entre os índios guarani Além de não morrer de amores pela seleção, Lauro e seus amigos estavam empenhados em uma missão mais importante. No próximo dia 26 de junho, os boleiros do Krukutu viajarão para enfrentar os indígenas que vivem perto do Pico do Jaraguá. Um clássico. Como também haverá uma partida feminina, foi preciso treinar. "Agora, as meninas estão muito mais fortes", diz o auxiliar de cozinha Gilmar Silva, 21 anos, de camisa 10 do Corinthians com o nome de Douglas e responsável por algumas pedaladas ao estilo de Robinho.
O futebol é fator de integração entre os poucos grupos indígenas localizados na capital paulista. A comunidade Tenondé Porã está a menos de 10 quilômetros da Krukutu e os duelos dentro de campo são frequentes. Os clássicos mais esperados acontecem em 19 de abril, Dia do Índio, e na véspera do Natal. Nestes momentos, até algumas aldeias de outros estados costumam viajar para participar e também se fazem representar dentro de campo.
O lateral-direito Índio, campeão brasileiro (1998 e 1999) e mundial (2000) pelo Corinthians, é lembrado com carinho na Aldeia Krukutu. Apesar dos títulos, ele garante que seus salários nunca passaram de R$ 1,5 mil e acusa um dirigente de aproveitar sua ingenuidade para lucrar. "Todos torciam por ele. Acho que foi o primeiro e mais conhecido índio a jogar futebol. Depois dele, não vi mais indígenas em times de ponta", afirmou Pedro Delane.
Sergio Barzaghi/Gazeta PressHércio Gabriel (esq.) aplaude vitória do Brasil Quando Elano marcou o segundo gol do Brasil, o sol já descia na aldeia. A sala de aula da escola era protegida dos raios solares por tábuas de madeira instaladas nas janelas, mas alguns feixes de luz penetravam no local e coloriam a fumaça dos cachimbos. Neste cenário, os índios lamentaram o gol de Ji Yun-Nam e aplaudiram no final. "Teve um pouco de nervosismo na estreia. Vamos ver se melhora no segundo jogo", disse Hércio Gabriel, 36 anos, vigia do posto de saúde e um dos poucos vestidos com a camisa do Brasil.
Krukutu é uma alusão ao canto das corujas, mas a cada ano as aves que inspiraram o nome da aldeia estão mais escassas, assim como os outros animais que poderiam ser caçados e os peixes da Represa Billings. A passagem do trecho sul do Rodoanel, recentemente concluído, a uma distancia de aproximadamente 8,5 quilômetros da área de proteção ambiental que abriga o grupo é mais um desafio a ser superado nos próximos anos.
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